Três coisas sobre São Carlos

#1.
No final de semana passado, passei novamente em São Carlos, com o objetivo de tentar pegar um material de making of e tive a oportunidade de visitar a produtora Ponto D, que ajudou bastante o Floresta – não só emprestando equipamento, como deslocando um funcionário, o Lucas, para passar um fim de semana de gravações conosco.

A Ponto D é uma produtora particularmente bem equipada. Fiquei impressionado com as instalações, com os materiais e com o empenho pessoal do Wellington e do Daniel em fazer as coisas bem feitas. Eles não só apoiaram o nosso filme como vieram a São Paulo para vê-lo pessoalmente.

Ao conversar com o Wellington, minha inexperiência em determinados assuntos, como o de negócios, ficou clara. Posso ser muito bom técnico, mas ainda peco muito em coisas fundamentais. O Wellington me contou que, ao apoiar o nosso filme, ele e o Daniel queriam deixar claro para todos que a Ponto D quer estar associada a qualquer tipo de produção que tenha como fim ser livre, que busque abrir novos caminhos e alternativas – eles querem incentivar outros projetos como o Floresta, que mexam com software livre, ou de pessoas que estejam começando.

E me falou algo incrível: que, em 2013, estão se preparando para apoiar como parceiros em torno de 5 projetos de audiovisual dos estudantes da UFSCar. Então, aproveito o espaço para divulgar direito as intenções deles, assim como dar a dica para os formandos da federal – corram lá!

Logo_PontoD

#2.
Sincronizei a minha ida para também tentar ver os trabalhos dos formandos de audiovisual deste ano da UFSCar. Em especial, queria ver o filme da Bárbara, que foi nossa assistente de direção no Floresta.

“O amor que não ousa dizer seu nome”, na verdade, foi um dos grandes destaques da noite. Não consegui chegar a tempo de ver todos os filmes, mas posso chutar com alguma segurança que foi o melhor trabalho da turma. É um curta metragem poético, singelo, delicado. Mostra um olhar e uma sensibilidade de alguém bastante seguro de si. Mais do que isso, mostra a capacidade de transformá-los em imagens (é interessante, inclusive, perceber as relações deste filme com o roteiro do próximo, que deve sair no ano que vem).

Abaixo, vai a segunda versão do teaser que elas fizeram. Com uma grande ressalva. Quando vi esse vídeo, achei que estava bem legal. Vendo o curta pronto, mudei bastante de opinião. Quem vê o curta entende este teaser. Quem não viu não percebe que ele aponta, tanto nas cores, como na música e nos movimentos, para lados que o filme não vai. E ainda bem que não vai.

Aqui, podemos ver duas dançarinas receosas. Elas se olham e se tocam em movimentos quase anti-naturais. Apresentam-se em uma luz estourada que as deixa distorcidas. No filme, elas são o exato oposto de tudo isso. As duas atrizes, a cabeleireira e a travesti, são fisicamente muito bonitas, e fazem uma atuação pontual, no ótimo sentido, o que as deixa fluidas nos papeis. A aproximação das duas ocorre de forma natural, espontânea, cúmplice. Esta cumplicidade está totalmente ausente no teaser. O envolvimento delas também se dá dentro de um respeito à natureza de cada uma, novamente invertido aqui.

Embora, entenda-se, não se trata de uma crítica ao teaser – é uma ressalva. Ele cai muito bem após o filme, completa-o de certa forma. Mas que as pessoas que o virem saibam: o filme é umas 40x melhor do que a impressão que você vai ter ao ver o teaser. Tanto que me surpreenderá se ele não ganhar vários festivais.

#3.
Este relato não tem tanto a ver com a cidade em si, mas o gancho começa lá. E fica o aviso de que ele não tem absolutamente nada a ver com o projeto Floresta Vermelha e é estritamente pessoal.

Depois que saí da produtora, no sábado, parei em uma lanchonete para perguntar como fazia para chegar à rodoviária de São Carlos. Os funcionários, super gentis, me explicaram que era mais fácil voltar e pegar o ônibus na Praça do Mercado. Já na rua, peguei uma pedra para atirar no rio e me para um carro, com um senhor e uma senhora. Me perguntam para onde eu ia. Explico e eles me pedem para subir. Eles não estavam indo para a rodoviária, mas me deram carona mesmo assim. “Pense como um presente de Natal adiantado”, ela falou, e demos risada.

Na parada do ônibus para São Paulo, sentei em um banco e fiquei olhando as pessoas. Chega um outro senhor, com a mulher e um cachorro. Prende o cachorro no meu banco e, logo, o bicho começa a se esfregar em mim, para fazer uma farra. O homem queria ir ao banheiro, falo que pode deixar o cachorro ali. Ele vai. A mulher fica meio de olho. O cachorro pula em mim. Logo, estou a sós com ele, e ficamos uns 10 minutos vendo as crianças passar. Na volta, o casal me agradece e me dá um sorvete.

Esses dois episódios não são únicos. Nessa última semana, em especial, tem acontecido coisas comigo que estou achando muito curiosas. Houve, por exemplo, uma noite em que eu queria muito falar com alguém, trocar uma ideia. Segui sem rumo pela Paulista para levar um livro a uma amiga e ouvi um chamado familiar: “Flávio?” Era uma amiga que encontro uma vez a cada ano, mais ou menos. Ela carregava a bicicleta sem qualquer motivo em particular, pois nem sabia porque estava à pé. Ficamos conversando horas em uma praça, na noite.

Outra vez, após passar a madrugada editando, acordei para descobrir uma luz intensa que brilhava por uns dois minutos acima de um prédio que só dava para ver da janela do meu quarto. Alta demais para ser uma luz do prédio, grande demais para ser uma estrela, ela pairava, cintilando. Descobri que meu quarto dá exatamente de frente para uma rota de aviões, e que eles praticamente miram os faróis ali quando chegam a São Paulo, às 6h da manhã.

Em outra madrugada, recebi uma notícia fantástica sobre um novo projeto, o que por si só já foi inusitado. Ao subir para o quarto, ao nascer do Sol, mais uma surpresa. Do mesmo lado por onde vêm os aviões, havia uma nuvem enorme de chuva, contrastando com o raiar do dia. O resultado foi o arco-íris que se vê abaixo.

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A foto não faz jus ao que foi o momento, ainda mais porque a Re me ligou logo em seguida e ficamos conversando juntos, eu contando para ela o que via. E o que a foto não mostra é que, do lado direito, o reflexo do arco-íris na nuvem era tão forte que formava um segundo arco-íris, bem sutil, mas presente. Por coincidência (?), eu havia trocado as lentes da minha câmera de madrugada, para testar um conversor, e deu tempo de tirar umas fotos.

Houve também outra coisa legal. No domingo, passei em frente ao beco da Vila Madalena e estava rolando o maior som, com o pessoal discotecando e um monte de gente dançando na rua. Quem conhece São Paulo, sabe que isso não é tão comum. No meio dessas pessoas, a Claudinha, nossa ilustre diretora de arte, e quem eu não via desde o lançamento do filme. Desci do carro e fui dar um oi. Ficamos ali, falando besteira.

Então, decidi tirar esses dias para andar de bike, aproveitar a cidade vazia. Percorri os 30km que me separam da Re em uma madrugada, a melhor hora para se pegar a estrada. E, no dia de Natal, notei um homem correndo na minha rua enquanto eu chegava em duas rodas. Cansado, ele havia começado a andar no exato momento em que o alcancei. Foi a minha vez de retribuir o gesto. Perguntei para onde ele ia, e dei-lhe uma carona para umas quadras abaixo – no que, acho, foi a primeira vez que peguei uma decida íngreme com alguém na garupa.

De dia, a Augusta estava vazia e desci-a sem mãos, cantando, a rua inteira, sonhando com os próximos mergulhos da Equipe Delta em águas geladas. Para voltar à noite ouvindo a rádio do Hype Machine e ver as luzes de Natal. Para, mais à noite ainda, enquanto eu fazia o prosaico gesto de pendurar as roupas sob a luz da lua cheia no céu aberto, descobrir a última coisa inusitada.

No chão da edícula onde fica o meu quarto havia uma pipa, inteira, que alguém deixou escapar. Sem saber o que fazer, pendurei-a na lâmpada, do lado de fora. Ela ficou batendo a madrugada toda na porta, até que me resignei e deixei-a entrar. Acho que era isso que ela queria. =)

Seja o que for que todas essas coisas, ou acontecimentos totalmente fora do comum queiram dizer, aparecendo um seguido do outro, estou feliz por tê-los por perto e tê-los presenciado. São as auroras boreais na volta para a casa da Gjøa, que se aproxima, lembrando-me do que fizemos.

É uma volta para casa cheia de tropeços, digna de um filme dos Trapalhões. Mas cheia de descobrimentos também. Cheia de coisas bonitas escondidas, e cheia de coisas bonitas que se escondem. Com um certo cuidado, na total falta de planejamento para esta etapa (o que, para o meu horror, diferencia esta jornada radicalmente da de Amundsen e evidencia ainda mais minha inexperiência em muitos assuntos), terminaremos a expedição realizados.

Houve uma pequena troca de planos. Há arco-íris duplos neste mundo. Ou, como diria à Fabs, há que se buscar o seu horizonte em linha reta. É para esses lugares que estamos rumando.

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